Quanto tempo leva do trabalho pro bandejão pro trabalho de novo?
Recebi o alerta: “bandejão de Natal amanhã”. Abro o aplicativo do cardápio: lasanha à bolonhesa, salada festiva, e as sobremesas: sorvete ou pêssego
O que é salada festiva? Nem importa.
A esperança de ser premiada pelo tempo e pelo espaço, chegando até a bancada de alumínio no momento exato em que a experiente funcionária do bandejão se distraísse, abandonando seu posto de vigia das guloseimas, e então eu… surrupiasse! um pêssego, colocando-o no bolso, e em seguida pousasse o sorvete na bandeja, orgulhosa…
Imaginar isso, minha bandeja com o cone de sorvete exposto para quem quisesse ver, é suficiente para abrir o Google Maps e calcular o trajeto trabalho – Bandejão Central – trabalho novamente.
A convocação foi feita. E, às 11h, entre enxertos de maquete e cola branca no escritório, recebo o registro que constata: uma das filas já está no bloco A do CRUSP. São 500 metros de fila.
E eu, que nos últimos tempos prezei, em voz alta e dedo em riste, pelo discurso “Três anos de arroz e feijão do bandejão. Dia e noite. Não dá mais!”, não pensei duas vezes e perguntei a minha supervisora:
– Você sabe o que é um bandejão? de Natal?.
Expliquei.
“Lasanha a bolonhesa” foi suficiente para receber um tapa nas costas:
– Não perca isso, garota!
Na fila, meus olhos brilham com aqueles que já venceram, com seus cones de sorvete em mãos, sorridentes, olhando pra fila não com um olhar condescendente, nada disso.
Nós, que aguardávamos nossa chance, não sentíamos sequer um piscar de “coitados”.
Pelo contrário: recebemos gestos de incentivo, de estímulo, para que seguíssemos na luta, de que ela vale a pena. Nem a dificuldade do meu amigo em estacionar seu Uno quadrado 2003 em meio ao caos da Festa do Livro da USP pode atrapalhar. Éramos um grupo de amigos movidos pelo espírito natalino. A fila era paraíso, sinfonia de estômago.
O Bandejão Central estava maquiado, amorosamente decorado. Salão pronto para nos receber.
Se essa ternura em cada detalhe é verdadeira ou não, não importa também: a partir da catraca, toda ação é enfeitiçada, todo ato é transformado por uma felicidade nova e única daquele lugar, naquele dia, com aquelas exatas pessoas especialmente aleatórias, no Natal de novembro. E tudo isso, amor, ternura por meus amigos, ternura pelos desconhecidos ao meu lado. E Deus me perdoe, mas até pensei em Jesus… e foi assim que, comovida por esse milagre, levei dois garfos a mesa. Já pensou ceiar com um garfo em cada mão? Outra coisa que já não importava mais.
Já à mesa, o grupo ao lado, que estava tão empolgado e tão tão perto, dizia:
– Até a salada está mais gostosa!
– E a bandeja está mais bonita!
– Olha só, a mesa está mais limpa!
Eu também vibrava na mesma lógica, o que normalmente é um desagrado, a mesa com tantos grupos diferentes, tantos desconhecidos falando tão alto, todos tão perto enquanto comemos, tornou-se mais uma dessas coisas que não importava mais.
Agora, hoje, naquele dia, isso foi até bom,
Estávamos dessa vez ceiando todos juntos, e não em grupos separados condenados a conviver.
Somos – éramos um grande grupo formando uma orquestra de papos furados e bater de bandejas
Comidos, estufados, finalmente percebi o que aconteceu.
Percebi que, do momento em que recebi o chamado e percorri nesta missão – que fui tomada por esse sentimento,
o que era uma quarta-feira descabelada qualquer de novembro, daquelas em que não fiz questão de estar com a cara limpa no ônibus Faria Lima–Vila Madalena,
transformou-se na quarta-feira da sagrada e milagrosa ceia,
Ceia que bateu de frente com o peru, chester, uvas-passas, salpicão, vinho e a vinda do menino da manjedoura, que, naquela quarta-feira, ainda estava em seu oitavo mês de gestação, lá em Nazaré.
Foi rápido e fácil assim. Vapt vupt, eu estava ali, de olhinhos vidrados e bucho inchado.
Percebi, também, que há 4 ou 5 anos não sento à mesa com minha família em um Natal, que muito antes desse gap já perdeu essas manias.
Essas manias de pinheiros de plástico e ceias tradicionais ou até esperar o menino Jesus. Antes disso, jantávamos com algum prato clássico de minha mãe, o mesmo do Ano Novo, dos aniversários… e, pelo amor do menino, eu não estou reclamando disso, mãe.
Esse ano depois desses 4, 5 ou 6 anos estaremos na mesma cidade no dia de Natal.
É isso! Esse Natal será mais parecido com a do bandejão de uma quarta-feira de novembro!
Apesar de não tornarmos a casa de minha mãe, logo abaixo da linha do equador, na casa do pinho, da neve e das luzes, nem prepararmos peru com farofa e pavês natalinos, sei que nos movimentaremos sob uma paixão, feitiço, ternura esquisita – familiar -, e ela é tão forte que pode, sim, gerar brigas ou aproximações, ou brigas e aproximações várias e várias vezes até as 00h do dia 25.
E, se sobrevivermos a essa emoção, comeremos à mesa a lasanha à bolonhesa do menino Jesus.


Deixe um comentário para Aurora Vinci Cancelar resposta