Iluminando os Cantos #5 – Retornos e Retomadas

Três meses depois da última edição, achei oportuno retomar essa coluna comentando alguns curiosos retornos de carreiras de artistas que tivemos nesse início de ano. Achei curiosa a impressão que tive nesses últimos meses de tantos cineasta voltando a filmar ou músicos que soltaram faixas depois de anos sem inéditas ou que simplesmente tiveram um momento com a sensação de “retorno”.

Duas comédias

Quando se anunciou que o lendário James L. Brooks voltaria à cadeira de direção o projeto obviamente se cercou de expectativas, ele não ocupava esse posto desde 2010 com a ótima comédia romântica Como Você Sabe, é tanto tempo que essa foi a última atuação de Jack Nicholson, cuja aposentadoria já parece hoje muito distante, desde então continuou firmemente como roteirista de Simpsons, que está desde o ínicio. O filme, Ella McCay – traduzido para o Brasil como Imperfeitamente Perfeita – foi lançado nos Estados Unidos no último dezembro e destruído pela crítica local. Não entenderam, assim como estão fadados a não entender todos seus gênios em suas respectivas épocas, mas dessa vez a repercussão foi tão negativa que a Disney cancelou o lançamento em cinemas internacionais e o renegou ao streaming.

Ao ver o filme essa reação do país natal soam bem curiosas. Imperfeitamente Perfeita é a história de uma jovem vice-governadora que deve assumir o cargo máximo do estado quando seu superior se afasta, a trama se passa em 2008 e claramente há aqui um caso de nostalgia por um mundo menos caótico politicamente que o de hoje, mas há algo a mais, com um profundo entendimento da encenação clássica americana, ele trata o período da crise de 2008 como alguns grandes cineastas tratavam 1929. Não é apenas nostalgia recente, é a concepção de um país e de seu cinema a partir de seus traumas e dilemas da memória recente.

Um percepção comum nas críticas foi o filme parecer “fora de seu tempo”, mas se realmente parece não é por conta de seus próprios feitos, mas sim por o quão asséptico se tornou o cinema de hollywood nas últimas décadas e da incapacidade deste de olhar para sua própria realidade com o coração e bondade que Brooks aqui propõe. Ele insistia em dizer em seu lançamento que se tratava de um longa sobre perdão e sobre como nossa época perdeu a capacidade de perdoar. Acredito que um dia ele então será perdoado por fazer o filme que o cinema americano precisava.

Todos esses pensamentos me levam a outro filme que parece fora de seu tempo. Por mais que seja tecnicamente errado falar que Sam Raimi não filmava há tempos, sua carreira recente ficou tão enclausurada pelos grandes estúdios que Socorro! soa sim como um retorno. Se considerarmos Oz: O Mágico e Poderoso (2013) e Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022) como projetos tipicamente de encomenda, se trata do primeiro filme dele desde Arraste-me para o Inferno (2009).

Esse retorno então não é à direção, mas ao seu mundo da direção, é um filme “pequeno” que carrega uma explosão não menor que a de Evil Dead ou Arraste-me para o Inferno. A história inicialmente simples da mulher que fica presa em uma ilha com seu chefe se revela a cada novo gore um pouco mais inusitada e sua escalada do humor ao cinismo é tão precisa quanto poderia.

É raro hoje ver um artesão tão competente quanto Raimi ter essa liberdade para fazer suas pequenas loucuras dentro de um grande estúdio e, mesmo que menos visto do que merecia, a existência e distribuição de filmes assim me trazem grande esperança que nem tudo nos estúdios está perdido.

Dois Singles

O Massive Attack é o tipo de banda que só lançam música quando quando realmente sentem que têm algo a falar, o que leva às vezes a grandes hiatos, seus cinco álbuns de estúdio são datados de 1991, 1994, 1998, 2003, 2010 e estavam desde um EP de 2020 sem nenhum lançamento. Fizeram uma incrível turnê entre 2024 e 2025 e depois de seu fim – em um show histórico em São Paulo, diga-se de passagem – anunciaram que esse ano voltariam a lançar músicas que gravaram nos últimos tempos. A nova música não é por si, então, uma surpresa, essa na verdade está na participação do lendário Tom Waits nos vocais, esse que não lançava nada desde 2011.

A canção usa perfeitamente a voz dura de Waits ao parea-la com instrumentais econômicos, mas precisos, uma letra densa que discorre sobre a indústria da guerra contemporânea e seus ciclos de violência que permeiam a sociedade. É um protesto raivoso cantando com a calma e pertinência que apenas um grande trovador conseguiria. Vale notar que seu longo clipe, feito em parceria com o fotógrafo americano thefinaleye e seus registros dos protestos nos EUA nos últimos seis anos, funciona como ótimo complemento à faixa.

A música também será lançada em um 12” com a faixa spoken-word de Waits “the fly” como lado B. Essa leva de lançamentos da banda de Bristol provavelmente não se limitará a isso, visto inclusive a turnê europeia que farão no meio do ano e o anúncio de que esse é apenas o primeiro de um ciclo “de uma política de exceção ao Spotify” como eles gostam de lembrar em cada release, fazendo deles uma voz importante no movimento de retirada de catálogos do Spotify ou de todos os streamings, algo que apenas adiciona no protesto que a faixa propõe. Vale lembrar que esse boicote em específico ao Spotify não é apenas pelo baixo pagamento aos artistas mas também por conta de um grande investimento que seu CEO fez em uma fabricante de drones militares, foi então muito pertinente uma banda com histórico tão politizado começar esse momento com essa denúncia à máquina da guerra.

Madonna é outra artista que, por mais que tenha tido seu último álbum lançado há sete anos, é difícil falar que saiu dos holofotes nesse meio tempo. Saiu da pandemia com uma muito bem sucedida turnê de carreira que culminou no grandioso show em Copacabana e ano passado voltou para sua primeira casa Warner Records com a promessa de um álbum novo que “sucederia” o confessions on a dance floor (2005). Esse álbum deu seus primeiros vislumbres em Abril confirmando o título “Confession II” e a faixa I Feel so Free.

Curioso aqui como o título e a faixa apontam para direções opostas. O primeiro vêm muito como aparente reflexo de nostalgia pela década de 2000 que teve algo de relevante nos últimos anos e parece por si um apelo barato a um sucesso antigo, já a música propriamente dita é quase que o contrário do que se pode esperar de uma retomada de confessions, uma faixa atmosférica que parece lembrar mais o Erotica e o Badtime Stories, sem deixar de lado o núcleo dançante, que mistura uma produção principal de Stuart Prince, figurinha já carimbada no pop mainstream que produziu o álbum de 2005, com a adicional de Arca, uma das mais interessantes artistas contemporâneas que inegavelmente ajudou a moldar o pop recente, seja em sua carreira solo ou em parcerias com Björk, Kelela, FKA Twigs e Kanye West, por exemplo.

Talvez a referência ao álbum de vinte anos atrás seja como esse próximo projeto de Madonna poderá ocupar em sua carreira um lugar parecido ao que o original construiu. Em 2005 ela vinha de uma sequência de álbuns mal recebidos e o projeto a colocou como uma artista do século XXI e reconstruiu o frescor de sua música para muitos da época, por mais que seus álbuns anteriores tenham hoje atingido status de clássicos. Não acho, por hora,  que os álbuns dos últimos 15 anos de sua carreira, também mal recebidos, tenham esse mesmo potencial de serem revisitados, assim como ainda tenho minhas dúvidas a respeito dessa nova empreitada, mas essa primeira amostra foi tão interessante e inesperada que é irresistível não colocar esperanças.

Um álbum

A história recente do Neurosis, importante nome do metal do final dos anos 90, integrando o que alguns agregam como post-metal, é um bastante conturbada. Sem lançamentos desde 2016, o vocalista e fundador Scott Kelly foi demitido do grupo por abusos “financeiros, físicos e emocionais” de sua própria família em 2019, caso que só veio a público em 2022.

A banda que, então, parecia morta para todos surpreendeu no dia 20 de março ao lançar um álbum inteiro de surpresa, agora com Aaron Turner, ex-membro da banda Isis e fundador do Sumac, como novo vocalista. An Undying Love for a Burning World é um álbum que, desde o título, surge não apenas de uma banda fragmentada mas que também encontra um mundo muito mais confuso do que aquele que o deixaram dez anos atrás. Navega por sons que vão do atmosférico ao agressivo com muita precisão, seu tom por muitas vezes apocalíptico lembra muito o trabalho recente do Sumac, o que deve ser a principal contribuição do novo vocalista.

Toda essa busca confusa por um mundo próprio é resumida na grandiosa faixa final Last Light, que passa por muitas das texturas sonoras do disco e coloca tudo em uma unidade que aponta dessa vez para um lado otimista. De todos os comentados nessa coluna, esse talvez seja o retorno mais inusitado e surpreendente, uma banda que realmente renasceu e apresenta agora um som maduro sem perder a radicalidade, com uma nova voz que o serve de forma fantástica.


PS. Entre a escrita e publicação dessa coluna, isso aconteceu. Só o futuro nos dirá quantos retornos inesperados 2026 nos reserva.

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