Iluminando os Cantos 4: Something happened on the day he died: Sobre Lynch, Bowie e mundos apagados

Quando li a notícia do falecimento de David Lynch, no dia 15 de janeiro de 2024, uma das primeiras coisas que fiz foi procurar rever uma cena específica do 15º episódio de Twin Peaks: The Return, que encontrei no youtube com a sugestivo título de Twin Peaks: Ed and Norma’s BEST Scene, trata-se do beijo dos dois ao som da fantástica I’ve Been Loving You Too Long (To Stop Now) de Otis Redding.

É talvez a mais bonita e a mais recompensadora cena de todo o Twin Peaks, o episódio já começa com o emocional – e, como sempre, um pouco cômico – discurso de Nadine dando a Ed sua liberdade. A chegada de Walter logo depois ao RR pode até levar a crer por alguns instantes que está tarde demais para o casal, mas depois, depois de todos os baixos que vimos a relação de Ed e Nadine, depois de todos os quases que Norma e Ed passaram por 30 anos, estão lá, bem mais velhos, no mesmo RR, três capítulos antes de tudo acabar, finalmente alcançando um final feliz. O beijo, o sorriso que Shelly abre no contra-plano, os progressivos cortes para o restaurante, as montanhas e o céu enquanto a música continua, tudo nessa sequência é perfeito.

Isso ajuda a sublinhar o que acho a qualidade definidora de Lynch quanto diretor, acima de toda a esquisitice e abstração que o rotulam está um artista absolutamente humano e generoso, tão humano que, sim, enxerga e destaca toda a crueldade do mundo, essa então não é para ele o objetivo de seus filmes como pode parecer, é apenas aquilo que existe no mundo cercando esses personagens tão queridos, por isso tão impactante o terror que passa Laura Dern em Império dos Sonhos ou Isabella Rossellini em Blue Velvet.

Uma coisa que sempre me vem à cabeça quando penso nesse lado de Lynch é que em seus últimos anos, tristemente não conseguindo orçamento para seus últimos projetos, ele passou exercendo paixões como a da carpintaria. É bonito pensar em Lynch como carpinteiro, um artista que coloca muito tempo e amor em cada uma de suas peças. Essa relação muito prática com seu objeto que o dá um poder de síntese tão grande do universo americano. Claro que é muito legal falar de seus saltos estruturais que dá entre os surrealismos de Estrada Perdida e Cidade dos Sonhos, mas há de se lembrar que no meio do caminho há Uma História Real, onde um idoso cruza os Estados Unidos apenas para perdoar o irmão depois de décadas, é esse tipo de amor pela humanidade que fornece o alicerce para o universo lynchiano, e é esse tipo de amor, em pura forma, que há nesses primeiros 10 minutos desse episódio de sua grande saga americana.


Depois desses mágicos 10 minutos, o episódio fica repentinamente sombrio, com o “Copper do Mal” pegando uma estrada em um take que muito se assemelha aos créditos de Estrada Perdida ao som de I’m Deranged de David Bowie, qual então não é a surpresa de todo o espectador da série de ver novamente, alguns minutos depois, Phillip Jeffries, personagem vivido por Bowie em Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, agora em forma de uma chaleira gigante.

Bowie faleceu no meio das filmagens de The Return, em 10 de janeiro de 2016, o que me leva a pensar que é impossível falar de um ano da morte de Lynch sem esparrar nos 10 da de Bowie. Foram artistas que mantiveram certo diálogo e quis o destino que partissem em datas tão coincidentes, o primeiro enquanto o segundo filmava o que viria a ser seu filme-testamento.

A última obra de Bowie que é um texto a parte, Blackstar, lançado dois dias antes de sua morte – e consequentemente também completando uma década esse mês – é um ponto final muito consciente, uma voz que ressoa do infinito entre a vida e a morte e construiu para sí um mausoléu. Daqueles álbuns que, dez anos depois, parecem ainda não terem sido absorvidos completamente, algo que nenhum clássico nunca é.

Mas se, além das datas, algo aproximou a morte desses dois foi o sentimento imediato que um mundo inteiro se apagou. foram artistas populares, cada um em sua escala, que deixaram um conjunto muito próprio, que na visão particular de cada um muitas vezes transcende suas posições históricas e se tornam realmente universos únicos, que ressoam de forma tão ampla que é difícil manter preciso seus rastros de influência. Uma das magias de Blackstar é conseguir transmitir essa magnitude com um som que parece se perder no tempo, há algo em sua guitarra e em seu saxofone que lembra a sensação da eletricidade se espalhando e The Return, essa coisa no ar, que está ali desde ninguém sabe quando e parece que nunca vai desvanecer completamente. Fantasmas, em suma.

A terceira temporada de Twin Peaks também tem certa consciência deste mundo que fecha mas a exerce por sua impenetrabilidade, do jeito que apenas os mestres da imagem em movimento conseguiram – acho que há muito de Rivette em Lynch, em geral, mas sinto especialmente aqui. Uma das poucas sensações parecidas que senti com essa temporada foi assistindo Duelle –. Gosto muito da frase de Walter Pater que toda a arte aspira à música, sinto que nessa coisa ao mesmo tempo indecifrável e fascinante, algo que vale para essa Twin Peaks mas também para  Cidade dos Sonhos e principalmente para Império dos Sonho, Lynch consegue algo perto desta qualidade impossível e seu trabalho musical, muito menos comentado mas não menos reveladora que as outras artes, mostra um raciocínio estético muito consistente. Por outro lado, levando Pater ao século XX, é óbvia a capacidade de Bowie de transformar música em imagem, talvez a relação basilar da música pop, deixou então como sua imagem final ele como o próprio Lázaro, entre o mundo dos vivos e dos mortos. Acho que isso resume muito do ponto todo.

São dois mundos que se apagaram, mas que ainda podemos acessá-los e essa magia de Ed e Norma tendo o final feliz que esperaram por 30 anos dificilmente se apagará.

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